“Com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade ! Ei‑la agora coberta de moradas em que eles se não abrigam ; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham ; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam ! Para eles só a neve, quando a neve cai e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos des praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cai, muda e branca na treva ; as criancinhas gelam nos seus trapos ; e a polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto ! A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada.”

...pour prix de chacun de ses pénibles efforts, un maigre croûton âprement marchandé...

"Os franceses nunca foram poetas, e a expressão natural do gênio francês é a prosa. Sem profunda, religiosa, ardente emoção, não há poesia; e a França não se comove, permanecendo sempre num razoável equilíbrio de sentimento e de razão, bem senhora da sua clara inteligência."


“Quatro quintos da França desejaram, aplaudiram a sentença. A França nunca foi, na realidade, uma exaltada de Justiça, nem mesmo uma amiga dos oprimidos. Esses sentimentos de alto humanismo pertenceram sempre e unicamente a uma élite, que os tinha, parte por espírito jurídico, parte por um fundo inconsciente de idealismo evangélico. Não nego que, aí por 1848, essa élite conseguiu propagar o seu sentimento na larga burguesia, sensibilizada, amolecida desde 1830 pela educação Romântica. Mas logo, com o Império, a França se recuperou, regressou à sua natureza natural, e recomeçou a ser como sempre, a Nação videira, formigueira, egoísta, seca, cúpida. Devia talvez acrescentar cruel – porque de facto todas as grandes crueldades da História Moderna, desde a guerra dos Albigenses até às Matanças de Setembro, têm sido cometidas pela França. O seu pretendido Humanitarismo e Messianismo do Amor Social é una mera réclame, montada pela Literatura romântica – que já fazia rugir de furor o velho e vidente Carlisle. E o processo de Rennes provou que a mesma Bondade, a bondade individual, é nela rara, ou tão frouxa, que se some, apenas a França, por um momento, se constitui em multidão. Em nenhuma outra nação se encontraria uma tão larga massa de povo para unanimemente desejar a condenação de um inocente (que sentia inocente) e voltar as costas, ou mesmo ladrar injúrias, à sua longa agonia.”

..Dans aucune autre nation on n’aurait trouvé une aussi grande masse de gens pour désirer unanimement la condamnation d’un innocent (qu’elle sentait innocent) et tourner le dos, ou même aboyer des injures, devant sa longue agonie...


Textos : José Maria de Eça de Queirós
Photografías : Sónia Marquès